• sexta-feira , 26 maio 2017 - Com a informação se combate o preconceito!

Por que a Parada da Diversidade de Florianópolis – a única que não é chamada de Parada Gay – é a menos valorizada do país?

Florianópolis, Ilha da Magia, de folclore, das festas eletrônicas, das praias, o Vale do Silício Brasileiro, terra de turista, gente de mente aberta e receptiva. Opa, nem tanto. Ainda impera um clima “fora haole” (e não me refiro a surfistas). Ser amigo de gay é cool, mas defender gay é perda de tempo, ser amiga de lésbica a torna uma também, ser amigo de trans é pecado mortal, a desigualdade existe e o preconceito ainda prevalece.

Parada da Diversidade Florianópolis 2013. (Foto: 4you Revista)

Parada da Diversidade Florianópolis 2013. (Foto: 4you Revista)

Ontem (06), mesmo em baixo de chuva – ou pouca chuva – aconteceu a 9ª Parada da Diversidade de Florianópolis. É a única do Brasil que não leva o título de Parada Gay, ou seja, como o próprio nome sugere, a ideia que seja menos Carnaval, mais marcha pela igualdade ou por alguma coisa.

Apesar deste fato, nada, nas mais de 10 horas de evento, fizeram menção ou deram notoriedade ao que realmente importa. (Diferente da foto a cima que foi batida em 2013). Como apontam, por exemplo, os dados alarmantes da UNAIDS envolvendo jovens brasileiros. Estudos recentes, mostram que houve um aumento de 40% de infectados pelo vírus HIV, enquanto que em outras partes do mundo o índice diminuiu. Ou ainda, que no ano passado, a homofobia motivou um assassinato a cada 27 horas no Brasil. Outras informações importantes que não foram se quer mencionadas diz respeito a 300 mil jovens expulsos de casa pelos pais por ser gay (dados dos Estados Unidos, ok), mas o fato de no nosso país nem existir uma pesquisa assim já seria tema de debate. Pessoas trans não conseguem empregos, lésbicas são olhadas com rejeição, enfim! O fato que não basta discursar que amar é um direito de todos e viva a vida que está tudo certo, porque não está!

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A iniciativa privada muitas vezes tem receio de associar a sua imagem ao público LGBT, pois sabe que os ignorantes irão rechaçar.  A iniciativa pública, – cita-se em esfera municipal – só se lembra deste mesmo público às vésperas das eleições.

No evento de ontem, foram mais de 10 horas de uma linda e colorida festa que em seu discurso de abertura o organizador e vereador Tiago Silva destacou que nem bispo, nem papa iriam impedir a Parada da Diversidade, mas não cobrou de seu prefeito Cesar Souza Junior o cumprimento da promessa de campanha que era a criação de um Conselho da Diversidade. De qualquer forma, a Parada Gay ou da Diversidade não deveria se restringir unicamente em um dia de festividades no qual seria lembrando no dia seguinte – como foi pela principal emissora de televisão -, com uma matéria a respeito somente do lixo deixado no local. Deve ser algo a mais. Já se passaram nove anos para aprender como fazer. E se de repente a organização municipal não tenha dado o devido valor ao evento deveria aceitar a sugestão das ONGs e Instituições LGBTs da Grande Florianópolis em idealizar um evento em conjunto, como era para ter sido este ano.

> Leia também: Entenda a polêmica da Parada da Diversidade Florianópolis 2015

O Fórum Diversidade, criado neste ano, reúne 24 entidades, coletivos, universidades e núcleos de pesquisa da Grande Florianópolis que pautam e buscam uma sociedade que respeite as relações de gênero e a orientação sexual dos indivíduos. A instituição organizou um mês da diversidade com muitas atividades com os mais diversos assuntos, tratando de saúde, educação, cultura e lazer. Houve sessões de cinema, atendimento social, palestras e mais, tudo aberto ao público.

Outra iniciativa que merece destaque são os jogos da Diversidade criados pelo professor Dulcimar Antônio Grando que conta com o apoio da Universidade do Estado de Santa Catarina, UDESC, através do CEFID. Os Jogos sempre acontecem em setembro independente de apoio municipal.

Um representante do Fórum da Diversidade esteve no carro principal, ontem no evento, na esperança de uma oportunidade de discursar para a comunidade LGBT. “Solicitamos uma fala no carro de abertura e esta foi dada como garantida pelo vereador Tiago Silva. Porém, no dia da Parada, tivemos a notícia de que a nossa fala seria silenciada mais uma vez. O que não foi uma surpresa”, afirma Lirous Fonseca, presidente da ADEH – Associação em Defesa dos Direitos Humanos com Enfoque na Sexualidade e membro do Fórum da Diversidade.

Devemos lembrar que fato de uma pessoa nascer gay, não significa que ela seja militante dos direitos LGBT, assim como o fato de uma pessoa nascer mulher, não a torna feminista. Para você ser um líder, precisa de ter minimamente pessoa para liderar, pessoas as quais confiam no seu trabalho e lhe respeitam nesse lugar. O que não acontece com o Vereador Tiago Silva, pois o movimento social não acredita mais nas suas falácias e falsas promessas”, Marcelo Freitas, secretário do Fórum Diversidade.

A ideia do nome Parada da Diversidade e não Parada Gay foi incrível, esplêndida para se dizer o mínimo, no entanto as forças deveriam ser unidas e inclusivas para se buscar o resultado pretendido. Debate, políticas sociais, inclusão, socialismo e porque não diversão. Festa sim, mas com mais propósito, até porque Carnaval nós já temos em Fevereiro.

Uma pena que seja assim, porque tenho certeza que muitos, que convivem lá pertinho, se tivessem a chance fariam muito melhor do que os que tem o poder da caneta. Quem sabe um dia.

Confira na íntegra o discurso preparado pelos organizadores do fórum da Diversidade.

Marcelo Freitas, secretário do Fórum Diversidade, com uma faixa preta na boca em sinal de protesto ao não cumprimento da promessa de discurso por parte do vereador Tiago silva. (Foto: Divulgação).

Marcelo Freitas, secretário do Fórum Diversidade, com uma faixa preta na boca em sinal de protesto ao não cumprimento da promessa de discurso por parte do vereador Tiago silva. (Foto: Divulgação).

Em primeiro lugar, gostaria de em nome do Fórum Diversidade Grande Florianópolis, de parabenizar a iniciativa histórica de construção da Parada Diversidade, que chega hoje à sua 9ª edição. O Fórum Diversidade foi criado neste ano de 2015 e reúne 24 entidades, coletivos, universidades e núcleos de pesquisa da Grande Florianópolis que pautam e buscam uma sociedade que respeite as relações de gênero e a orientação sexual dos indivíduos. Fizemos um mês da diversidade com muitas atividades com os mais diversos assuntos, tratando de saúde, educação, cultura e lazer. É importante frisar que quando as Paradas LGBT iniciaram lá na década de 1990, tiveram a missão importante de dar visibilidade às Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais. E é isso que a Parada de Florianópolis tem feito há quase uma década. No entanto, todos nós presentes aqui hoje ocupamos as ruas, existimos e resistimos numa sociedade cruel e preconceituosa durante todos os dias do ano, e por isso precisamos exigir mais que visibilidade; precisamos exigir VOZ e a possibilidade de construirmos coletivamente estratégias de combate às discriminações que vivenciamos no nosso cotidiano. Nós parabenizamos mesmo não estando presente na construção da Parada e gostaríamos do ano seguinte sermos convidados desde o início para que pudéssemos legitimar a parada da diversidade como uma manifestação de luta e resistência ao invés somente de uma festa comemorativa, pois a nossa realidade é outra, não temos nada para comemorar. É por isso, Sr. Prefeito, Sr. Secretário, e demais autoridades presentes que o Fórum Diversidade vem aqui hoje se colocar à disposição e exigir que possamos construir juntos POLÍTICAS PÚBLICAS EFETIVAS para a promoção da NOSSA cidadania. Para cidadania das pessoas LGBT como um todo – desde as periferias ao centro. A gente precisa construir juntos, nos gabinetes, mas também nos parques, nas praias, nas praças e nas ruas, discussões e ações efetivas que coloquem Florianópolis no Hall das capitais brasileiras que visibilizam, mas também ouve e protege a população como um todo. Para isso, vamos consolidar URGENTEMENTE, o “Tripé da Cidadania LGBT”. Implantar o Conselho Municipal LGBT; efetivar o Plano Municipal de Políticas LGBT e criar um espaço que execute estas ações que seria o caso de uma Coordenadoria LGBT. Precisamos urgentemente pactuar esta capital com as ações que vêm sendo criadas pelo Governo Federal e demais estados, por meio do Sistema Nacional LGBT. Só assim podemos pensar em realizar a 10 ª Parada com espaços para que o município e as entidades locais exponham e informe seus serviços cotidianos, como acontece no Rio de Janeiro e São Paulo. Vamos fazer a partir daqui uma Parada alegre, grande e ÚTIL. É com este objetivo que viemos aqui hoje. Para reivindicar o “direito de ser quem somos” – TODOS OS DIAS. E por fim, informar que todas e todos presentes estão convidados para agregarem esse espaço de luta que é o Fórum da Diversidade tem realizado. E também para participarem ativamente da II Conferencia Municipal de Políticas LGBT que acontecerá nos dias 23 e 24 de outubro. Estes espaços são fundamentais para construirmos juntos uma Florianópolis que respeita, aceita e acolhe a Diversidade! Obrigada!

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2 Comentários

  1. Leoes do Norte
    8 de setembro de 2015 at 00:54 - Reply

    A Parada da Diversidade, em Pernambuco, realizada desde o ano de 2002 sempre foi desde a primeira edição Parada da Diversidade. Essa no será a 15a edição sempre com Diversidade

  2. Thon Cris Paiva
    21 de outubro de 2015 at 12:39 - Reply

    Não é a única a ser chamada assim … a Parada da Diversidade LGBT de Curitiba também é assim chamado.