• sexta-feira , 26 maio 2017 - Com a informação se combate o preconceito!

Intersexualidade, um questionamento às normas

filósofa Beatriz Preciado

Filósofa Beatriz Preciado.

Ao ser indagada sobre sua identidade era homem ou mulher, a filósofa Beatriz Preciado respondeu: “Essa pergunta reflete uma ansiosa obsessão ocidental […], a de querer reduzir a verdade do sexo a um binómio”.

E nesta dualidade, neste paradoxal binarismo entre o certo/errado, bem/mal, o bom/mau, céu/inferno, claro/escuro, real/fantasia, puro/impuro, masculino/feminino, anima/animus, mulher/homem que reside o enquadramento das normas. Seja uma cisnormatividade, à favor de desqualificar as identidades de gênero ou uma heteronormatividade, que insiste em patologizar as orientações sexuais, o ser humano é invadido, controlado e recebe contornos de sistemas ditatoriais ao próprio corpo e desejo.

O professor Luís Guerreiro (1921), tece alguns comentários sobre as normas: ‘Estas descrições [tipificações] correspondem a hipotéticos indivíduos normais’. Ele insiste na ideia de que estes ‘tipos’ seriam produtos contumazes da ciência, que trabalha com a binaridade saúde/doença. O professor continua: ‘[…] qualquer outra disposição, não incluída nessas descrições, na mesma letra dos tratados de anatomia e conforme eles, ou constitui uma anomalia, que pode ser grande ou pequena, ou uma variação, anomalia ou monstruosidade, segundo a sua aparência’.

É diante deste ponto de vista que devemos refletir sobre a norma, o dito normal, que não existe na Natureza, mas estudos registrados em livros param serem seguidos. Fórmulas que se afastam do afeto e do indivíduo e que servem para ser replicadas e reproduzidas. Tomadas como verdadeiras e inquestionáveis.

E quanto aos casos de intersexo? Crianças que desafiam as lógicas e determinações científicas e que confirma que a Natureza não segue o raciocínio do ser humano, tampouco seus preconceitos e limitações. Pessoas que são o próprio questionamento deste binarismo sexual, mas que tem seus corpos violados e violentados através de tratamentos hormonais e/ou cirúrgicos.

Na esfera da biologia, o primeiro que usou o termo ‘intersexualidade’ foi o geneticista Richard Goldschmidt no artigo Intersexuality and the Endocrine Aspect of Sex, para o jornal Endocrinology, em 1917. Foram feitas referências a uma série de ambiguidades sexuais, incluindo o hermafroditismo, termo este estigmatizante e inapropriado para representar os intersexuais.

Vemos, claramente, a incapacidade da medicina em lidar com casos assim. É o machismo e o sexismo agindo a favor da heteronormatividade e que dita, parte, do destino de alguém que não teve qualquer poder de escolha.

Filósofa Judith Butler.

Filósofa Judith Butler.

O que se entende por cirurgias ‘bem-sucedidas’ é quando o novo sexo coincide com a identidade sexual a esse sexo associada e orientação heteronormativa que lhe corresponde. Poderes arquitetados para atuar como ‘matriz heteressexual’, expressão da filósofa Judith Butler e que revela a hegemonia heterossexual sobre os corpos e o que Foucault denuncia a sujeição dos corpos e o controle populacional, o biopoder.

Um exemplo destas cirurgias de redesignação genital são os casos de Síndrome de Rokitansky, classificadas como ‘agenesias mulleriana’, no qual não se completa a formação da vagina, colo do útero, uretra, e/ou trompas de Falópio. Além das inúmeras cirurgias, a pessoa é submetida a um doloroso processo de dilatação que consiste em manter relações heterossexuais com penetração vaginal por um pênis de tamanho ‘normal’, mesmo que isto não tenha nenhum efeito prazeroso.

Primeiro: a vagina deve ser constituída para receber este pênis, ou seja, as cirurgias, nos casos de intersexo, são pensadas de acordo com a urgência heteronormativas de formatar pessoas para cumprirem as designações sociais, médicas e religiosas. A prática sexual implica órgão penetrador e outro penetrável.

Este ‘falocentrismo’ é crucial à heteronormatividade a ponto de, mesmo sofrendo preconceito, a relação sexual entre dois homens ainda é visível socialmente do que entre duas mulheres, daí o lesbianismo ainda mais invisibilizado na sociedade.

Segundo: o pênis de tamanho normal – não sei que tamanho seria considerado normal – é superestimado a ponto de ser declarado, parte essencial do procedimento cirúrgico. Pra variar, a mulher necessitando de um homem para sentir-se completa e definida.   Mas fato é que, uma criança que nasce com um pênis de 2 cm será percebido como incapaz de penetrar uma vagina, logo, a possibilidade de ser amputado e criada uma neovagina. Homens e mulheres sofrem com esta ‘heteromutilação’, pois tudo não passa de interpretações e a readequação para um mundo de ‘normais’.

Em uma região mais isolada da República Dominicana, por exemplo, existem os ‘guevedoces’, que significa ‘pênis aos doze’. Um fenômeno em que meninos nascem parecendo meninas e só na puberdade desenvolvem o pênis.

A professora e pesquisadora Julianne Imperato-McGinley, do Cornell Medical College, em Nova York, estudou estes casos desde 1970 e descobriu que o fato de não terem genitália masculina ao nascer se deve à deficiência de uma enzima chamada 5-alfarredutase, que normalmente converte a testosterona em dihidrotestosterona. Este hormônio transforma o tubérculo em um pênis. Mas é bom mencionar que o corpo não define orientação sexual, tampouco comportamento ou caráter.

O gênero é definido naquilo que Butler denomina de performances, ou seja, a identidade de gênero se dá a partir de atos que acontecem no corpo, repetidamente. Estas repetições que vão moldando as identidades, através de discursos de instituições, normas, conceitos e mentalidades arbitrárias e violentas. Na tentativa de tornar humano e possibilitar à uma vida saudável, os métodos científicos adotados para resignificar o genital somente muda um órgão, jamais a identidade. O gênero se constitui naquilo que, acertadamente, Butler coloca como ‘constrangimentos’ e acrescento, enquanto esta binaridade não for revista, o preço cobrado das pessoas intersesuais será alto demais.

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