• sexta-feira , 26 maio 2017 - Com a informação se combate o preconceito!

Família: Saindo do armário…pais e filhos

Família 3

Muitos pais ficam assustados com a descoberta da homossexualidade do filho. A surpresa e os sentimentos envolvidos estão relacionados ao medo, preconceito, falta de conhecimento e esclarecimentos sobre sexualidade. Em tempos de “sexolatria”, uma enxurrada de informações distorcidas e conceitos equivocados resultam em concepções deturpadas e criam inúmeras “cascas” e resistências. O mundo está mudando, as sociedades se reformulam, as mentalidades se transformam e as famílias se metamorfoseiam. É preciso que os pais participem, dialoguem e sejam uma ponte para este filho se conhecer melhor, e para tal, permanecer com a mente e o coração abertos e dispostos a receber e sustentar a identidade, características, desejos e a sexualidade dos filhos.

Um primeiro aspecto importante é entender que ser pai e mãe não está condicionado à orientação sexual do filho. O que deve sustentar esta relação familiar é o amor, carinho e o respeito um com o outro. Os pais devem agir com o máximo de naturalidade possível com o filho ao descobrirem sua homossexualidade. O diálogo é o primeiro passo para se compreender melhor as questões relacionadas ao filho. É importante ele se sentir seguro com os pais e ter o apoio deles, pois isto será fundamental para que ele e a família lidem com as dificuldades e conflitos que, inevitavelmente, vão surgir.

Para o filho, ter referências é essencial e para os pais, ficar ao lado, sustentar esta identidade sexual do filho é importante. Aprendam aos poucos a lidar com os próprios limites e preconceitos, mas busque ampliar os horizontes e abra sua mente e o coração. Nada de chantagens emocionais ou discursos religiosos. Seu filho já está com medo. Se é difícil para os pais, para o filho também, afinal, se assumir é apoderar-se de fato de sua identidade.

Os pais podem se sentir culpados sim. Questionam-se e se preocupam com o sofrimento do filho, como se pudessem poupá-los deste sofrimento. Muitos pais se recriminam a ponto de retalharem pela homossexualidade do filho.  Não se torturem desta forma. Não tem como evitar o sofrimento e a dor no filho, mas vocês podem diminuir o impacto e o efeito deste sofrimento. A reciprocidade, a união da família e o apoio mútuo vão favorecer para que todos consigam superar os anseios que podem surgir.

Não se deve criar uma “bolha” para os filhos, afinal, o crescimento e o amadurecimento são alicerçados através dos obstáculos que eles vão e devem enfrentar. Não crie sentimentos de dependência, não infantilize e torne a relação com você uma relação doentia. Supere sua culpa e se fortaleça. É a melhor maneira de enfrentar os “muros” emocionais e transmitir segurança para o filho.

Alguns pais expulsam seus filhos de casa ou buscam repreender os filhos de formas diferentes e diga-se de passagem, severas e que vão machucar emocionalmente. Há até quem bata no filho adolescente. O medo e a ignorância originam absurdos e crueldades. Tem pai e mãe que acha que os castigos farão com que os filhos deixem de ser aquilo que realmente são. Ao invés da repressão, prefiram o conhecimento. Procurem saber sobre orientação sexual e a homossexualidade, desmistificando a concepção de “opção” sexual. Este conceito é preconceituoso, pois, não se escolhe nada. Se é homossexual.

Se preferência sexual fosse uma opção, ninguém optaria por ter um gosto que converte a pessoa quase que automaticamente numa vítima do preconceito social. Se questione: “nasce” ou “se torna” homossexual. Se você respondeu a segunda, gostaria que me respondesse, então: E você, quando se tornou heterossexual?

Para as crianças não existem estas divisões sexuais.  Elas aprendem no decorrer do seu desenvolvimento as diferenças entre os sexos e também de gênero, muito em função de imposições e padrões sociais. Padrões que são criados por inúmeros motivos e interesses, e que, não estão necessariamente atrelados à sexualidade. Por exemplo, as determinações de cores, azul para meninos e rosa para meninas foi criada por interesses de marketing. Em 1918 dizia que o rosa, por ser mais forte, era adequado aos garotos. E o azul, por ser delicado, às garotas. Isso mudou a partir de 1920 até 1950 pelas lojas de roupa para poder vender mais. Estes conceitos fragmentam mentalidades. Criam o preconceito nas crianças que desde pequenas são apresentadas às concepções segregadoras.

Menino-Barbie

Menino protagoniza campanha da Barbie pela primeira vez na história. (Foto:Divulgação).

Os brinquedos podem ser tanto de um como de outro. Da mesma maneira que meninos podem brincar de boneca, comidinha ou casinha, as meninas devem ter a liberdade de brincarem de futebol. É importante fortalecer a autonomia das crianças e não reprimirem suas vontades.

Os pais devem se preocupar em dialogar com os filhos e manter a mente aberta para falar sobre sexo com eles. Muitos pais são negligentes a isso porque não tiveram uma educação sexual de seus pais, mas é importante abordarem questões relativas à namorar, levar alguém em casa, a primeira vez e assim por diante. Meninos e meninas devem se perceber e adquirir confiança e responsabilidades para reconhecer, assim, os próprios limites. Desta maneira, vão se apropriar com segurança da própria sexualidade.

Para o jovem, este processo de apoderar de si é importante e determinante para o futuro dele. O “coming out”, o ato de “sair do armário” é importante, porque dentro deste armário possui medo, repressão, anseio, questionamentos e vergonha. Fora do armário não é menos sofrido, pois, a sociedade ainda é preconceituosa, mesmo com tantas transformações sociais.

A homofobia é sustentada por um sistema patriarcal, que define o que é masculinidade e feminilidade. Esta mentalidade vem perdendo força, pois existe uma reconfiguração entre os gêneros, o que implica diretamente uma mudança de postura e comportamentos entre homens e mulheres. O homem e a mulher autônomos não vivem mais atrelados aos conceitos ortodoxos.

A mulher é feminina, singela, delicada, sensual, mas também é forte, líder, tem iniciativa. Não se limita a carregar os atributos ligados ao gênero feminino. O mesmo acontece com os homens. Estão mais sensíveis, mantêm contato com seus sentimentos, estão mais frágeis, são pais participativos na vida de seus filhos, estão se cuidando mais, sem desqualificar suas características masculinas. Acreditar que se pode mudar a orientação sexual é acreditar na famigerada “cura gay”. Os pais devem sustentar a autonomia do filho para que ele se sinta forte e seguro de sua sexualidade.

Diga-se de passagem, não existe a cura gay. O que se deve curar é o preconceito. É através da aceitação, da compreensão, do amor, do carinho e o diálogo que combatemos o preconceito. O homossexual não está homossexual, ele é. Devemos curar sim o preconceito e combater os conceitos deturpados, a ignorância da sociedade sobre a homoafetividade. Duas mulheres podem se amar. Dois homens podem se amar. Estes casais devem se amar e serem felizes.

Se você acha que ser homossexual é um sofrimento, é ingenuidade achar que não existem menos conflitos na heterossexualidade. Os pais que pensam assim devem se esforçar em não ser, de fato, um sofrimento para seu filho. Não tolere a sexualidade de seu filho, respeite-a.

Muitos pais acreditam que o filho gay poderia influenciar negativamente os irmãos mais novos. Eles são irmãos e como tal, devem ser amigos, companheiros e serem próximos um do outro. Pais, preocupem-se em favorecer a interação entre eles. A amizade entre os irmãos é muito importante para ambos. Entenda que o desejo e o prazer são singulares, bem como as expressões sexuais são legitimadas quando espontâneas e próprias de cada ser humano.

Quanto maior o ódio dos opressores, maior é a comoção afetiva dos oprimidos, que não se submetem mais ao sofrimento e agora, buscam o enfrentamento. É assim que casais que têm uma relação homoafetiva rompem com a ideia deturpada de que não podem estabelecer vínculo familiar. Não só constituem famílias como a relação afetiva é reconhecida como entidade familiar, com direitos e deveres.

Pais cuidem de si e cuidem dos seus. Serão seus filhos e isso não mudará.  Cuidar de si é uma prerrogativa para todos os seres humanos. Busque a felicidade e promova a felicidade de seu filho, que tanto precisa de você. Acredite o que você pensa faz diferença sim. Participe da vida dele. Esteja pronto para conhecer namorados e namoradas. Informe-se, leia, conheça e converse sobre sexo com seu filho. Esta educação deve ser proporcionada e praticada em casa por todos da família.

Pratique e promova educação sexual em casa. Acolha e abrace as dificuldades do seu filho, sem impor sua visão da vida, mas perceba quais são as necessidades de vida do seu filho. Os pais devem ficar atentos para estas transformações e se permitirem a elas. Conversem mais um com o outro para alinhar pensamentos e opiniões. Não se conforme, mas, acostume-se, adapte-se e seja feliz com e ao lado do seu filho.

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