• sexta-feira , 26 maio 2017 - Com a informação se combate o preconceito!

Cavalherismo e o sexismo misericordioso

Gravatas Van Heusen - Anos 50 "Mostre para ela que o mundo é dos homens" - parece que nos anos 50, os argumentos machistas eram mais toleráveis. O anúncio das gravatas Van Heusen era o exemplo claro de como a mulher deveria ser submissa ao homem. Imagine a polêmica se este anúncio fosse veiculado nos dias atuais.

Gravatas Van Heusen – Anos 50
“Mostre para ela que o mundo é dos homens” – parece que nos anos 50, os argumentos machistas eram mais toleráveis. O anúncio das gravatas Van Heusen era o exemplo claro de como a mulher deveria ser submissa ao homem. Imagine a polêmica se este anúncio fosse veiculado nos dias atuais.

O machismo é um fenômeno perpetuado na história através do conceito do sistema patriarcal, em que consiste na figura do homem a centralização de decisões, regras, padrões, normas, condutas e mentalidades. E é na forma de pensar que se estabelece o machismo. As imposições do opressor e a submissão do oprimido.

Enquanto houver diferenciações de educação entre meninos e meninas, censurar outra mulher por ela ter uma atitude mais sensual, acreditarmos que homens e mulheres realizam determinadas atividades e que a conta do motel é obrigação deles, estaremos alicerçando o machismo.

O cavalheirismo, por exemplo, é uma maneira sutil e disfarçada do machismo, pois é um conceito atrelado apenas aos homens. Todos devem ser gentis, cordatos, educados, cordiais e sociáveis, comportamentos que devem permear homens e mulheres.

O cavalheirismo nasce de uma questão de educação, bons modos e nobreza diante da mulher. Os gestos de cavalheirismos eram e são considerados importantes pelas mulheres como um requisito para um homem. Abrir a porta do carro, puxar a cadeira para ela se sentar, carregar as sacolas das compras, entre outras práticas, nada mais são do que atitudes de educação, gentileza e simpatia. Diga-se de passagem, atitudes que todos deveriam ter como agradecer, pedir licença, dizer bom dia, boa tarde e boa noite, por favor, entre outras palavrinhas que são ”mágicas” e fazem uma grande diferença nas relações interpessoais.

O fato dos homens serem cavalheiros estava muito associado com o papel que ocupavam na sociedade. Fortes e soberanos deveriam ajudar as mulheres. Acontece que a gentileza não deve subjugar o outro. Só pode existir cavalheirismo em uma sociedade já profundamente e inerentemente machista. Não é possível ser cavalheiro sem ser machista.

Cavalheirismo é machismo porque se baseia na ideia de que a ajuda oferecida a uma mulher é porque são mais fracas e frágeis. O machismo reside justamente em só fazer essas coisas pelas mulheres. Todos precisam de ajuda, inclusive homens, e não quer dizer que um homem que ajuda uma mulher a trocar o pneu seja melhor do que ela. Outra situação que me intriga e são as heranças de uma sociedade que determinam fortes e fracos, e é isto que alimento o cavalheirismo. Por que na hora de pagar a conta o garçom sempre entrega a conta para o homem?

cavalheirismo-machismo

O fato de as mulheres terem se inserido no mercado de trabalho fez com que elas vivam sem ficar atreladas aos homens. Com o tempo se libertaram da aprovação masculina e hoje sabem exatamente o que querem. Fazem aquilo que desejam e dão vazão a suas vontades sem pedir permissão ao homem.

Eles, por conta desta emancipação feminina, consideram não precisar mais ajudar a mulher, uma vez que elas estão no mesmo patamar. Antes era inadmissível a namorada pagar a conta do restaurante e hoje isso é espontâneo e visto como algo natural por homens e mulheres. Mas ainda existe muita resistência por parte deles. Homens, aprendam que as mulheres

Carla Cristina Garcia define o sexismo como um ‘conjunto de métodos e [ações] empregados no seio do patriarcado para manter em situação de inferioridade, subordinação e exploração o sexo dominado: o feminino’. Cavalherismo leia-se como sexismo misericordioso.

A proposta é justamente contrária a este pensamento. Vivemos um momento social que requer cada vez mais igualdade entre os sexos e as pessoas precisam acreditar nisso. Lembrando que o contrário de igualdade não é diferença, mas desigualdade. O tempo de servilismo das mulheres acabou da mesma maneira que o androcentrismo, ou seja, os privilégios masculinos e, não estão atrelados a um desmerecimento do lugar ocupado pelas mulheres.

As mulheres cada vez mais vêm impondo seus desejos, vontades, atitudes e contribuindo para que os homens saiam um pouco dos moldes do machismo. Mulheres não querem só um homem cavalheiro, mas um companheiro que saiba ser gentil e aceite a gentileza delas. Que deem ajuda, mas saibam receber ajuda. Não existe superioridade ou soberba em uma relação amorosa.

Muitos homens não conseguem se doar ou romper paradigmas por ainda se considerarem hegemônicos e poderosos em relação às mulheres, pura fantasia que revela fragilidade e dificuldades de aceitação.

Ainda as mulheres se submetem a todo este sistema escravizante e perpetuam esta onda, não por serem machista, mas porque são o resultado de uma sociedade sexista e que ainda pregoa concepções de que algumas decisões importantes devem ser tomadas por homens, ou que no casamento deve-se satisfazer o marido mesmo que a esposa não tenha vontade, nos estilo ‘quero lhe usar’ ou que a mulher ceder ao sexo seria retribuição por eles pagarem a conta.

O homem que tratar bem a mãe, a esposa (a mãe dos meus filhos) ou a irmã porque são mulheres ‘dignas’, ‘descentes’, ‘de família’ ou porque ‘elas merecem’ fazem uma divisão entre mulheres ‘direitas’ e as ‘erradas’. Deveriam tratar todas as mulheres muito bem, ou melhor, todas as pessoas muito bem. Estas segregações sexistas fazem do processo de mudança de mentalidades uma procrastinação.

Devem-se rever os conceitos de educação com as crianças e educá-las para que meninos participem de atividades domésticas e meninas possam participar de atividades tidas masculinas sem restrições, como jogar bola por exemplo.

Muitas mulheres, compulsoriamente, abandonam suas carreiras profissionais para serem donas de casa ou consideram que felicidade e independência estejam vinculadas ao casamento. Legitimar a autonomia é compreender que não existem papéis totalitários ou padrões inquestionáveis, mas a liberdade de ser você mesmo sem definições arbitrárias.

Termino com a frase da atriz estadunidense, Mae West: ‘Todo homem que encontro quer me proteger… não posso imaginar do quê’. Eu, particularmente,  digo não ao cavalheirismo e sim à gentileza. E você?

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