• quarta-feira , 18 julho 2018 - Com a informação se combate o preconceito!

#‎VaiTerGêneroNoPMESim, com certeza

PNE

Gênero é a palavra do momento, conceito a ser discutido e refletido. Mas como diz o meu sobrinho, ‘só que não’. Conceito que deveria ser levado a sério, subestimado e esquecido, volta à cena e com força total. Isso porque tem causado calafrios em alguns parlamentares aqui no Brasil.

O termo foi banido do texto final do PNE (Plano Nacional de Educação) que traça diretrizes para o setor e que entrará em vigor este ano. Este impedimento aconteceu muito em função da bancada evangélica que pressionaram Estados e municípios para retirar o termo ‘gênero’ e referências às questões de gênero.

O que chama atenção é que num país dito Laico, ou seja, uma laicidade que pressupõe a separação da sociedade civil e das religiões, não exercendo o Estado qualquer poder religioso e as igrejas qualquer poder político, o Brasil possui uma bancada evangélica no Congresso que é o retrato do retrocesso. Existem pessoas, formadores de opinião, políticos e pastores que se prestam ao desserviço à reflexão e ao diálogo e reforçam a intolerância sexual e religiosa. Posicionamentos que de fato, não se preocupa com a integridade e os direitos, mas cultiva ódio e amargor.

A hashtag (#VaiTerGêneronoPMESim) iniciou uma campanha para não só incluir a discussão de gêneros nas escolas, como tornou-se oposição à postura restritiva e impositiva de uma onda conservadora da política e da sociedade que insiste em não discutir assuntos emergenciais no âmbito escolar, contradizendo a máxima de uma ‘educação para todos’ sem proibições ou tolhimentos.

A tal ‘Pátria Educadora’ fica fadada a uma ideia efêmera de progresso e desenvolvimento. A educação, que infelizmente, é um dos setores da sociedade mais prejudicados pela corrupção e falta de investimento do Governo, também sofre com esta concepção falaciosa e que insistem em nos fazer engolir goela abaixo.

Mas o burburinho que iniciou com a hashtag está longe de ser uma ‘marola’ ou a ‘onda’ medíocre como a censura velada, tanto que o MEC (Ministério da Educação) retoma a discussão e dá seu aval para volta do termo ao ambiente educacional. Agora é com os municípios legislarem individualmente.

Em São Paulo, de 8 à 11 de Agosto aconteceu uma manifestação na Câmara Municipal para demonstrar e visibilizar o debate que mais que gênero, a escola deve ser inclusiva, um lugar onde se cultiva a igualdade e que deve combater a desigualdade, o preconceito, o bullying e a violência.

Mas o movimento social é muito mais do que ir contra a mutilação aos planos de ensino, mas discutir e implementar ações que de fato possam contribuir para combater as barbáries que acontecem pela falta de conhecimento. Discutir gênero é em primeiro lugar, debater posicionamentos entre homens e mulheres, sem um aniquilar as diferenças entre as pessoas, mas garantir um espaço democrático e mais justo.

Discutir gênero é refletir sobre o machismo e a misoginia que tanto afetam as pessoas. É rediscutir as configurações familiares, inclusive, é abarcar a família que deve ter um olhar ampliado para poder acolher. Discutir gênero é propiciar reflexões que visibilizem as questões relacionadas à orientação sexual. É combater a violência dentro e fora das escolas.

desigualdade-na-escola

Violência esta que vitimou em maio deste ano uma aluna de 12 anos da Escola Estadual Leonor Quadros, no Jardim Miriam, zona sul de São Paulo. Ela foi estuprada por outros três alunos com idades próximas à vítima, em um dos banheiros da escola.

Outro exemplo foi em 2014 no Rio de Janeiro, Alex, um menino de 8 anos, foi espancado pelo pai até a morte, tendo o fígado dilacerado, porque gostava de lavar louça e de dança do ventre. O menino foi mais uma vítima de homofobia. Homofobia que vem atrelada à misoginia, porque a violência é contra a homossexualidade e à figura feminina. A consideração que o pai fazia ao filho dizendo para ele ‘andar que nem homem’ já denota preconceito, machismo e imposição.

Não se pode compreender gênero pelo viés genético, tal qual é como a etnia, muito embora, a parte biológica não deve ser excluída. Sejam brancos, negros, pardos ou índios as pessoas nascem como tal e assim respeitar características e aspectos físicos típicos daquela etnia, mas identidade de gênero não é determinada pela biologia, mas construções sociais que definem papéis sociais.

Acontece que discutir gênero traz em si outras questões sociais que a política brasileira não está nem um pouco disposta a pensar. Os feminismos, orientação sexual e identidade de gênero.

Feminismo, em especial, é outro termo que causa temor aos mais conservadores e é um conceito pouco compreendido na sociedade, muito embora seja bastante falado pelas pessoas, mas que gera distorções e confusões.

Em uma sociedade cujas raízes são sustentadas pelo patriarcado e androcêntrica, devemos nos atentar para posições sexistas, em que os valores masculinos sobressaem aos femininos. Este é o momento para aprofundar-se no que afirmou Simone de Beauvoir, ‘Não se nasce mulher, torna-se’ e tornar-se é desmistificar o patriarcado que causa sofrimento á mulheres e homens. Talvez estes homens precisem ‘tornar-se’ mulheres para lutar contra estas arbitrariedades sociais.

Não precisamos do aval da política para refletir sobre assuntos tão emergentes, seja na escola ou na sociedade. Exemplo disso é que em 2015 acontecerão três eventos no país que possui como cerne de discussão as questões de gênero e teorias atuais que embasam estas reflexões, como a teoria Queer, com direito a presença ilustre da filósofa Judith Butler, uma das maiores expoentes sobre o assunto.

Em Salvador aconteceu entre os dias 4 à 7 de Setembro, na Universidade Federal da Bahia o II Seminário Internacional Desfazendo Gênero e em São Paulo, no mesmo mês, de 8 à 11 de Setembro na Unesp o I Congresso Internacional e II Congresso Nacional de Literatura e Gênero e nos dias 9 e 10  acorrerá o I Seminário Queer, organizado pela revista Cult. Vai ter gênero sim, alguma dúvida?

Relacionados

2 Comentários

  1. Melissa
    17 de agosto de 2015 at 22:37 - Reply

    Na cidade de Magé/RJ a votação foi dia 24/06. Todos os vereadores são cristãos e só teve um que achou inadequado essa postura de todos acusarem a suposta “ideologia de gênero” sem discutir realmente o que ela representa. Chamaram lideranças religiosas na câmara, mas não convidaram ninguém que lute pela causa LGBT. Um dos convidados foi o bispo da diocese de Petrópolis, cuja postura é a mesma dos religiosos pelo país. Durante a votação soube-se que qualquer menção a gênero e orientação sexual foram tirados do PME e teve vereador que disse que “estava votando consciente por não estar indo contra os princípios de deus”.

    • Redação
      Redação
      17 de agosto de 2015 at 22:45 - Reply

      Melissa, obrigada pela sua contribuição.
      Infelizmente eles não conseguem enxergar na frente que um debate acerca do tema poderia proporcionar mais paz e igualdade para nossa sociedade. Pelo contrário, parece que preferem instigar o preconceito e a exclusão.